Olho para as horas, é tarde! Levanto-me e a realidade começa a abater-se mais uma vez sobre mim, para começar o dia. Tiro a roupa e refugio-me na água quente de mais um banho demorado. Ecoa na minha cabeça a noite passada. Ecoa um "nunca me esqueci de ti", triste, incontrolado, melancólico, no entanto com uma réstia de esperança. "É o riso, é a lágrima, a expressão incontrolada". "Não podia ser de outra maneira", pois não? Surge, incontrolada, a arritmia inevitável do meu coração ameaçado.
Visto-me, arranjo-me, até me maquilho como num dia normal, sabendo todavia que será o último desta estória. Depois começa outra, uma estória diferente, uma estória que agora me parece não vir a ser minha, como se eu me tornasse num alguém diferente. Saio de casa, atrasada, não tinha reparado nas mensagens. Vou a correr como se o fizesse para conseguir evitar alguma coisa, estagnar um instante temporal outrora vivido. Enquanto corro tenho a certeza de que poderia ser diferente do que será.
Chego, vejo-te de pé, à espera. Sei que estás irritado pelo meu atraso, mas também sei que a irritação não é aquela que fora um dia. Começamos a caminhar, conversando ao longo do percurso. Os assuntos são banais, nada têm a ver com o desmoronar da minha noite passada. Chegamos e sentamo-nos. Curiosamente o sítio é o mesmo de outras discussões passadas, mas nessas o fim teria sido diferente daquele que hoje eu adivinhava. Calamo-nos.
Enquanto a noite passada entra nos nossos pensamentos, o meu mundo parece desmoronar-se novamente. O rio da noite anterior volta a correr. É mais intenso ainda, se tal fora possível. É desesperado, ouve-se aos soluços, como se o fim do mundo tivesse chegado. É uma espécie de morte, a morte de uma estória, a morte da estória. Como tal, nada mais vejo à minha volta: as folhas secas e molhadas caídas no chão, os ramos despidos das árvores, os fungos que consomem a casca dos troncos, as luzes de natal que se esbatem através das minhas lágrimas, o Inverno a chegar mais cedo. Esta dor é-me inacreditável. Nunca me achei capaz de amar desta maneira, de me magoar desta maneira.
As vidas que passam à minha volta parecem-me todas tão distantes, tão maquinais. Cada uma daquelas pessoas consumida pela sua própria realidade, sem quase olhar à volta. Parecem-me robôs a passear numa tarde fria de Outono, Inverno para mim. Nós começamos a falar e à medida que o tempo passa, sem dizermos muito, dizemos quase tudo o que é preciso. Sei agora que ainda estás apaixonado por mim, mas que nada posso fazer para que mudes de decisão. Sei que vamos tentar continuar amigos, mas magoa-me ficar a saber que não totalmente: não me vais contar tudo e que também não queres que eu te conte tudo. Sei, cada vez mais o quanto me vai doer. Abraças-me por mais de uma vez e eu a ti. Os teus abraços continuam a saber a casa, mas desta vez também sabem a fim. A maquilhagem já se foi há muito. Queria um beijo, mesmo que fosse o último, mas não ouso pedir-to, nem tão pouco dar-to.
Convences-me a ir embora contigo, a pé. Nunca aquela caminhada me pareceu tão longa e ao mesmo tempo tão curta. Vais tentando aliviar o ambiente, dizes uma ou duas piadas, as do costume. Eu continuo de cara lavada. Abraço-te de novo. Queria tanto um beijo. O autocarro chega. Adeus.
"Falling in love filled my soul with fright
You said "come on babe, it'll be alright"
Must have been a fool till the bitter end"
Must have been a fool till the bitter end"
"Bato a porta devagar, olho só mais uma vez... Como é(ra) tão bonita esta avenida!"
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