Estranhamente eu pareço ser a única que para. Paro e deixo-me ficar, submersa até ao pescoço, a olhar, apenas a olhar. Vejo os barcos, vejo os pássaros, o céu e as rochas à volta, reparo no horizonte onde o mar se perde, onde eu me perco.
Deito-me sobre o mar, a boiar. O olhar ora no horizonte, ora no céu. Deixo que as ondas me embalem. Relaxo. Não ouço nada mais que o silêncio do mar. Sabe bem. Todas as preocupações parecem desvanecer-se neste refúgio. Aqui tudo é simples e fácil: as nuvens brancas de algodão, o céu azul clarinho, a força e a frescura do mar que me envolve e me balança, o sol quente que me bate na cara, o silêncio... Not a worry in the world. Estou na crista da onda.
Mas, de repente, essa onda torna-se mais forte, mais agressiva e cobre-me a cara, fazendo-me engasgar. Todas as preocupações se tornam de novo eminentes, assim, de repente, sem aviso. É como que um acordar para a realidade. O sol deixa de cobrir o meu corpo e água parece-me mais fria, já não vejo as nuvens e o céu, a onda virou-me para a costa. Agora ouço todos os ruídos humanos de quem, não como eu, se sente feliz e despreocupado na sua realidade... como eu era, na crista da onda.
Quero voltar, quero deixar-me estar outra vez, com a sensação de que tudo vai ficar bem, de que tudo está bem. Não consigo. A onda que me deu uma bofetada tornou tudo claro, deixou tudo a descoberto... outra vez.
Acabo por ficar a vaguear no meio das outras ondas, sem saber para onde olhar, sem saber o que fazer.
Desde pequenina, sempre fui uma menina do mar.
"I left my soul there,
Down by the sea
I lost control here
Living free"
Down by the sea
I lost control here
Living free"