Olho pela janela do carro para te ver chegar, não como outrora, quando ainda eras tu. Agora vens amparada por aquele que um dia foi o teu filho. Vejo-te chegar e saio do carro para te dar mais um beijinho e ouvir-te perguntar mais uma vez: "E esta menina bonita quem é?". Ouço-os a dizerem-te o meu nome e um "é a sua neta.", esperançoso de uma réstia de lembrança da tua parte. Não te lembras, é claro. Eles também não te respondem. Eles vivem-te como aquilo que um dia foste, eles vivem-te com a remarcada esperança de que o voltes a ser. Não o és, é claro. Dói-lhes sentir-te a fugir, dói-lhes a amostra daquilo que um dia serão: uma folha caída.
Sentas-te ao meu lado e vais o caminho todo a murmurar palavras interligadas sem sentido, algumas que nem palavras são. Só eu te oiço. Falas baixo como se a vida te fugisse por entre essas palavras. Quando te respondo pareces não saber lidar com isso, mas acabas por o fazer. Desculpas-te o melhor que podes pela tua falta de coerência, com as palavras que ainda te habitam e eu sorrio-te, acenando sem dizer mais nada. Já não pousas a tua mão na minha perna, como quem me agarra a ti. Passas a viagem a ver as vistas e a murmurar o que ninguém entende. Eu observo-te. Os meus olhos embaciam-se: como é que as penas caem assim?
Chegamos, eles cumprimentam-te todos, dizendo-te quem são. "Quem são", como se pelo nome e grau de parentesco pudesses perceber alguma coisa! Os únicos que não te dão essas duas informações tão fúteis são os "cachopos". Talvez esses sejam os únicos a dizer-te aquilo que precisas de saber, com sorrisos, birras e brincadeiras à mistura. Tu sentas-te. Não vês quase nada, quase ninguém e também não há quase ninguém que te veja. Têm-te como um misto de seu dever, sua nostalgia, sua memória de estimação, sua caridade de estimação... seu carinho. Acho que os "cachopos" são aqueles que melhor te vêem: chéché como estás e uma grande mulher como foste um dia.
"A vida é o dia de hoje,
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa;
A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai;
A vida dura um momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cai!
A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrela cadente,
Voa mais leve que a ave;
Nuvem que o vento nos ares,
Onda que o vento nos mares,
Uma após outra lançou.
A vida - pena caída
Da asa de ave ferida -
De vale em vale impelida
A vida o vento a levou!"
João de Deus, recitado por ti.
A ti, avó.