O desenho não lhe saía do lápis, estava enclausurado numa qualquer ausência de conclusão sonhada outrora. Nem as bailarinas, que eram tão suas, tão cheias daquela magia que lhe enchia os olhos com aqueles diamantes brutos que parecem querer brilhar para sempre. Não, nem essas. Onde teriam ficado as bailarinas? Certamente próximas das borboletas, do tamanho de elefantes, que sempre pareciam voar na sua barriga em momentos do tão saboroso nervoso miudinho que fazia questão de sentir sempre que valia a pena.
Hoje em dia só escrevia sobre tragédias de algibeira... mas continuava a tentar desenhar gentes, lá isso continuava. Gentes que perdiam as emoções transmitidas através dos sorrisos, dos olhares e das rugas, para as ganharem todas pelo corpo, por correntes, por impulsos, por tudo e por nada. O movimento. O movimento e as gentes - sempre a tinham fascinado tanto.
Imersa então em pensamentos, começara a recordar as suas estórias antigas. Pensava em viagens de carro ao som de Madredeus, em Verões em casas de praia com banda sonora de Elis Regina, Caetano e Chico. Lembrava-se de colher limões para dar sorrisos; de falar tanto sobre tanta coisa que havia sempre conclusões novas; do entusiasmo de partilhar histórias. Lembrava-se do nascimento de pequenos grandes orgulhos e de danças tão felizes como o orgulho de corrigir o nome daquilo que é nosso. Revivia as ressacas às 4h da manhã, com luzes penduradas em casas clandestinas; os abraços com sabor a cobertor; os intervalos de parvoeira; as danças ao pôr do sol, com os músculos a doer e um sorriso desmedido de mar. Recordava as noitadas de (pouco) estudo; as serenatas e beijos à chuva; os passeios na ribeira, dos quais nem o frio desmesurado a faria arredar pé. E as memórias dos fardos de palha; das mãos dadas de cumplicidade; dos rasgões de lágrimas; das fontes secretas e clubes mágicos? Ah, que delícia. Sorria ao recordar as capas enroladas em volta dos corpos a rebolar na relva fresca; os jantares de sorrisos; as corridas de mistério; as noites de confidências - as lutas sentidas e vividas. Pensava em projectos e aspirações. Imaginava as lutas que havia por lutar, aquilo que nunca vira e gostava de ver, o muito que gostava de vir a sentir e, porque era inevitável, pensava nos impulsos que nunca seguira.
No geral, quando olhava para trás, conseguia ver a sua linha, a sua marca. Sabia que fora muito feliz. Isso dava-lhe esperança para o que estava para vir, fosse ela pequena com bailarinas e borboletas na barriga, ou grande com gentes e dores de cabeça.
23 de Dezembro/1 de Janeiro
2 de Maio
2 de Maio