quinta-feira, 23 de junho de 2011

Open your eyes

Hoje encontrei-me.

Fim da tarde/Noite. Ia eu numa daquelas tantas viagens de metro sempre iguais umas às outras.

Distracção de uma qualquer conversa entre duas raparigas, sobre um qualquer assunto que não ficou retido na minha memória. Olho para uma das raparigas, "a brasileira", "tem um saco na mão" reparo. Um saco transparente: um martelo de s. joão e um embrulho. A outra, "a portuguesa", vários sacos. Compras pensei eu... agora vem-me à ideia que falavam de algo relacionado com trabalho. Eu ouvia, já não sei o que pensava. Talvez até nem tivesse pensado nada, talvez o assunto não me tivesse despertado interesse suficiente para tecer qualquer tipo de comentário mental. Não sei.

Reparo numa rapariga sentada, olhar alergre, entuasiasmado. Encosto a cabeça ao metro, olho lá para fora. Como tantas outras vezes, o meu olhar perde-se numa qualquer paisagem reconhecidamente desconhecida, propositadamente aleatória. Olho de novo para dentro: as raparigas continuam a falar; a outra rapariga segue animada. O meu olhar vagueia pela carruagem, até que pára.

Reparo num rapaz encostado no canto oposto a mim, head-phones on. Os pêlos dos meus braços arrepiam-se. A expressão, o olhar do rapaz.. aquela expressão, aquele olhar. Olhar cansado e  vago, sem fixar nada com muita atenção ou por mais do que breves instantes, expressão triste. Fico intrigada.

Ouço a voz "do metro" a acordar-me: vou sair na próxima estação. Movo-me para mais próximo da entrada e olho mais uma vez. O nosso olhar cruza-se e prende-se por alguns momentos. Apercebo-me da razão do arrepio: encontrei-me. Encontrei-me num olhar e numa expressão que não são meus, mas que traduzem exactamente a maneira como me sinto.

Saio do metro, não olho para trás. Ao caminhar em direcção a casa, ao subir as escadas (o elevador parece-me cada vez menos apropriado) sinto o sol a acariciar-me levemente o rosto. Na minha mente não há nada para além daquele rosto, daquela expressão. Por um caminho tantas vezes percorrido, já tão automático e "mais-do-que-visto" vou olhando para as coisas: a entrada da escola, as pessoas à porta, a casa com o cão, os carros estacionados, a tradicional "senhora à janela". Reparo então num pormenor que nunca me tinha saltado à vista: um vaso de flores vermelhas depositado numa qualquer varanda. Observo para mim mesma, que aquele vaso tem "ar" de já estar ali há bastante tempo. Penso: Percorro este caminho pelo menos uma vez por dia, normalmente duas. Como é que nunca reparei nisto?

Tudo isto numa questão de breves minutos.

Hoje revi-me. Não gostei do que vi. Não gostei do que senti. Mas não consigo deixar de pensar que não fui a única a encontrar-me naquele olhar.




Balancing the whole thing!

Whose work is it but your own to open your eyes?
21-06-2011

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